Domingo, Fevereiro 22, 2026
NOTÍCIA

ELEIÇÕES 2026: ENTRE MEDO E PROPOSTAS

Por: Frei Betto

Tradução: George Mc Pherson

Brasília, 06 de fev (Prensa Latina) As recentes campanhas eleitorais tornaram-se arenas sofisticadas de disputas simbólicas, emocionais e programáticas. Diferentes projetos políticos buscam legitimação junto ao eleitorado. Nesse contexto, observa-se uma diferença recorrente entre o modo como os partidos de direita e os progressistas estruturam suas mensagens e mobilizam o eleitorado.

Embora essa distinção não seja absoluta nem válida para todos os países ou períodos históricos, ajuda a compreender padrões frequentes de comunicação política e sobretudo as reações emocionais e racionais dos eleitores diante das diversas estratégias.

Partidos de direita, especialmente em momentos de crise econômica, social ou institucional, tendem a estruturar suas campanhas a partir da exacerbação do medo. O discurso costuma enfatizar ameaças reais ou imaginárias, como aumento da criminalidade, imigração descontrolada, perda de valores tradicionais (Deus, pátria e família), instabilidade econômica, corrupção sistêmica.

A mensagem central sugere que algo precioso está em perigo, a ordem social encontra-se em risco e mudanças culturais, políticas, institucionais, podem desestruturar o modo de vida do eleitor. Portanto, apenas uma liderança forte, firme e, muitas vezes, autoritária será capaz de restaurar a ordem e a segurança.

O medo provoca uma emoção com elevado potencial mobilizador. Ao ativar sentimentos de insegurança, campanhas desse tipo tendem a reduzir a disposição do eleitor ao pensamento crítico e à avaliação de alternativas possíveis. Do ponto de vista psicológico, também à tolerância e à pluralidade. Intensifica a busca por soluções simplistas e rápidas, como aumentar o efetivo policial e o número de prisões.

A direita frequentemente recorre a lideranças personalizadas e a discursos de autoridade, apresentando-se como força capaz de restaurar a ordem e garantir a estabilidade social e o crescimento econômico.

Suas campanhas utilizam exaustivamente esse recurso ao oferecer narrativas claras, com antagonismos bem definidos: “nós” contra “eles”. “Eles” podem ser minorias sociais, elites políticas, instituições internacionais, movimentos progressistas ou veículos da mídia.

Ao personalizar ou simplificar os problemas, o discurso torna-se facilmente assimilável e emocionalmente mobilizador, sobretudo em ambientes digitais marcados pela circulação acelerada de informações e desinformação (fake news).

Campanhas baseadas no medo costumam usar slogans curtos e linguagem direta, com imagens aterrorizantes nos meios de comunicação de massa e nas redes digitais. Mensagens alarmistas tendem a se espalhar com maior rapidez. A repetição constante de cenários negativos cria um ambiente de insegurança e urgência, no qual o voto passa a ser visto como arma de defesa, quase instintiva, contra a ameaça iminente.

Em contraste, partidos progressistas, em geral, estruturam suas campanhas a partir da apresentação de propostas programáticas e projetos administrativos e/ou de transformação social. O foco recai sobre políticas públicas, ampliação de direitos, redução das desigualdades, inclusão social, sustentabilidade ambiental e fortalecimento das instituições democráticas.

A narrativa progressista costuma estar centrada no futuro de bem-estar ao propor mudanças graduais ou estruturais que exigem planejamento, participação coletiva e confiança na ação do Estado.

Essa abordagem privilegia a dimensão racional do comportamento eleitoral e aposta na capacidade do eleitor de avaliar diagnósticos, comparar programas e considerar impactos coletivos das políticas propostas. Apela mais à racionalidade do cidadão do que às suas emoções primárias.

Programas de governo detalhados e possíveis soluções de médio e longo prazos para os problemas atuais são marcas frequentes dessas campanhas.

abo/glmv

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