Quinta-feira, Fevereiro 19, 2026
NOTÍCIA

O PODER DO SÍMBOLO NA CAMPANHA POLÍTICA

Por:Frei Betto

Tradução por: George Mc Pherson

Brasília, 09 de fev (Prensa Latina) Em campanhas políticas, raramente se vence apresentando apenas as melhores propostas ou os planos mais bem estruturados. Ganha quem consegue tocar áreas profundas do inconsciente coletivo. Faixas, coros, gestos, slogans, música e imagens não são meros enfeites publicitários: são símbolos. O símbolo, como ensinaram Sigmund Freud e Joseph Campbell, fala diretamente ao inconsciente.

Freud demonstrou que grande parte do comportamento humano é motivada por desejos, anseios e impulsos que escapam à consciência racional. O indivíduo acredita que escolhe com base na lógica, mas muitas vezes responde a estímulos simbólicos que ativam memórias da infância, arquétipos familiares ou fantasias de proteção e poder. Transferindo isso para a política, o eleitor não vota apenas em propostas; vota em figuras que representam pai, mãe, herói, salvador ou vingador.

O candidato que se apresenta como “homem forte” evoca uma imagem paterna autoritária, que promete ordem diante do caos. Ou seja, foi construído como uma figura nutridora ativa na dimensão materna, sinônimo de cuidado e pertencimento. Freud descreveria essa transferência: emoções originalmente direcionadas a figuras primárias da infância, não projetadas como líderes políticos. Assim, a alavanca se transforma em um coletivo.

Joseph Campbell expande essa leitura para explorar a mitologia comparada. Para ele, todas as culturas compartilham narrativas fundamentais, organizadas em arquétipos universais: herói, mentor, amigo, jornada, permanência e retorno.

Em campanhas eleitorais eficazes, o candidato é apresentado como o protagonista de uma epopeia contemporânea. Há sempre um obstáculo a ser derrotado — corrupção, sistema, elite, comunismo, capitalismo — e um mundo que aguarda a liberdade.

Campbell explica que o mito não é uma fábula ultra-passada, mas uma linguagem simbólica que dá sentido à experiência humana. Quando um político usa certas vestimentas, adota gestos calculados ou repete frases ritualísticas, ele está encenando um mito moderno. A política se torna um teatro sagrado, onde o eleitor assume o papel de comunidade e iniciação, aguardando a redenção.

Pois o símbolo reside precisamente em sua ambiguidade. Ele não explica: ele sugere. Não argumente: convoque. Uma bandeira não diz nada objetivamente, mas pode provocar lágrimas. Um osso, uma camisa ou um gesto como o meu (vide medo nazista) podem condensar ideologias inteiras. Freud diria que o símbolo funciona como uma condensação onírica, produzindo múltiplos significados comprimidos em uma única imagem.

Portanto, slogans simples são frequentemente mais eficazes do que programas complexos. Eles operam como mantras políticos, repetidos até se fixarem no inconsciente coletivo. A razão dá espaço ao feto. O eleitor começa a “sentir” que o candidato é verdadeiro, forte ou diferente — mesmo que não consiga explicar o porquê.

Essa dinâmica ajuda a entender por que os fatos muitas vezes perdem para as narrativas. O símbolo cria pertencimento. Quem adere acaba por integrar uma tribo emocional. Criticar o líder torna-se, então, um ataque pessoal, porque o indivíduo transformou sua identidade em um mito.

Freud alerta para o perigo das massas quando guiadas por impulsos inconscientes. Campbell, por sua vez, nos diz que o herói também pode degenerar em tirano quando deixa de servir à equipe e começa a exigir adoração. A história política recente mostra como os símbolos podem libertar, mas também aprisionar.

Compreender o papel do símbolo na campanha política é, portanto, um exercício de cidadania. Reconstruir os arquétipos na realidade, perceber as transferências emocionais e identificar as narrativas míticas ajuda o eleitor a recuperar certa autonomia durante o espetáculo eleitoral.

Em um mundo saturado de imagens, o que domina ou governa simbolicamente os afetos? E quem governa afetos frequentemente ganharia votos. Cabe à cidade percorrer o mito e perguntar, em nome da encenação: que projeto real se esconde por trás da alegoria?

Porque, como Freud e Campbell ensinaram, o símbolo é poderoso, mas não inocente.

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