Esta opinião aparece nesta quarta-feira nas manchetes dos principais meios de comunicação, sobretudo europeus e norte-americanos.
A escalada bélica após o ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel contra o Irã desencadeou a pior crise para a aviação comercial desde a pandemia da Covid-19.
Assim, o setor é atingido justamente quando se preparava para comemorar um ano de lucros históricos, mas com margens extremamente frágeis.
Em 28 de fevereiro de 2026, a operação militar lançada contra alvos em território iraniano provocou o fechamento imediato do espaço aéreo de pelo menos sete países do Oriente Médio, incluindo Irã, Iraque, Israel, Catar, Bahrein, Kuwait e Síria, enquanto os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita operavam com severas restrições.
A medida, adotada por razões de segurança diante do risco de voos civis serem confundidos com alvos militares, paralisou os três grandes hubs da região.
É o caso do Aeroporto Internacional de Dubai, do Aeroporto Internacional de Abu Dhabi e do Aeroporto Internacional de Doha, que juntos movimentam cerca de 90 mil passageiros em trânsito todos os dias.
Os números do colapso são eloquentes. De acordo com a empresa de análise Cirium, desde o início das hostilidades, mais de 19 mil voos com destino ou origem no Oriente Médio foram cancelados.
Somente no dia 1º de março, mais de duas mil operações foram suspensas, aproximadamente metade do programado.
Companhias aéreas de todo o mundo foram obrigadas a interromper rotas: a Air India cancelou conexões com a Europa e a América do Norte, a Singapore Airlines suspendeu seus serviços até 7 de março e o Grupo Lufthansa fez o mesmo até 8 de março.
A Agência de Segurança Aérea da União Europeia (EASA) estendeu seu alerta de alto risco para voos na região, inicialmente até 6 de março, embora os especialistas prevejam que a normalização levará semanas.
O impacto econômico é imediato e profundo. O petróleo, cujo custo representa entre 20% e 30% das despesas operacionais de uma companhia aérea, disparou: o Brent ultrapassou os US$ 82 por barril, com analistas projetando que poderia chegar a US$ 100 se o conflito se prolongar.
Além disso, as rotas alternativas para evitar a zona de conflito prolongam os voos entre 30 e 90 minutos, aumentando o consumo de combustível e os custos de manutenção, que já haviam subido 39% nos últimos três anos. As seguradoras já antecipam um aumento nos prêmios, um custo adicional que acabará repercutindo no preço final da passagem.
A ironia é que esse choque chega em um momento de aparente bonança para a aviação global.
A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) projetava para 2026 um lucro líquido recorde de US$ 41 bilhões, com um crescimento de 4,9% no número de passageiros e uma receita superior a US$ 1 trilhão (um trilhão equivale a um milhão de milhões).
No entanto, esses números escondem uma realidade de fragilidade estrutural: a margem de lucro líquido das companhias aéreas é de apenas 3,9%, o que equivale a uns escassos US$ 7,90 por passageiro.
Nesse contexto de margens tão apertadas, qualquer perturbação como a atual pode corroer rapidamente a rentabilidade.
A crise expõe a vulnerabilidade de um modelo que transformou o Oriente Médio no eixo da conectividade global.
Nas últimas duas décadas, a região duplicou sua participação no tráfego aéreo mundial, acumulando cerca de 10% dos passageiros internacionais.
Suas companhias aéreas, como Emirates, Qatar Airways e Etihad, construíram seu sucesso com base na geografia: a partir do Golfo, um voo de oito horas cobre dois terços da população mundial. Mas essa mesma centralidade se torna um calcanhar de Aquiles quando a região se transforma em um campo de batalha.
Os efeitos em cadeia já são sentidos além da aviação. Especialistas citados pela Reuters e pela Bloomberg alertam que, se o conflito persistir e os fluxos de energia através do Estreito de Ormuz forem interrompidos, as pressões inflacionárias poderão retornar com força.
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