Longe de ser um lugar comum, a expressão, criada nos primórdios do século XX pelo crítico italiano Ricciotto Canudo em seu Manifesto das Sete Artes, se baseia no fato de o cinema articular arquitetura, escultura, pintura, música, literatura e dança através do movimento, da narrativa e da emoção.
O cinema é muito mais do que uma tecnologia de projeção de imagens. Desde sua origem, no fim do século XIX, se consolidou como um dos principais meios de construção de narrativas culturais e identitárias. Filmes criam mitologias, questionam dogmas, reforçam ideologias ou as desestabilizam.
Nesse vasto campo simbólico, a confluência entre cinema, religião e política revela-se particularmente rica — e, por vezes, explosiva.
A tela, como espaço simbólico, transforma-se em arena de disputas onde se cruzam o sagrado, o profano, o poder e a resistência.
O fascínio do cinema pelas histórias religiosas é evidente desde seus primórdios. A Bíblia, por exemplo, inspirou dezenas de produções hollywoodianas que buscavam representar o divino com o esplendor técnico da sétima arte. Obras como Ben-Hur (1959), de William Wyler, e Os Dez Mandamentos (1956), de Cecil B. DeMille, não apenas retratam narrativas bíblicas. Evocam também valores morais alinhados a certo ideal cristão ocidental, frequentemente associado ao conservadorismo.
Ao longo de décadas, no entanto, essa representação do sagrado se expandiu para além da iconografia cristã. O cinema iraniano contemporâneo, por exemplo, oferece uma profunda reflexão sobre a relação entre espiritualidade e vida cotidiana no contexto islâmico. Filmes como O Balão Branco (1995), de Jafar Panahi, ou A Separação (2011), de Asghar Farhadi, embora não sejam “religiosos” em sentido tradicional, abordam a fé como parte intrínseca da experiência humana em sociedades teocráticas ou fortemente religiosas.
Também é preciso mencionar obras que abordam religiosidades de matrizes africana e indígena, muitas vezes marginalizadas ou estigmatizadas. Filmes como O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, e M8 – Quando a Morte Socorre a Vida (2019), de Jeferson De, revelam tensões entre o sincretismo religioso brasileiro e a intolerância institucionalizada.
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