Por Orlando Oramas León
Correspondente-chefe no Uruguai
Isso atrai milhares de migrantes, muitos deles de países caribenhos, mas também argentinos, peruanos e de além-mar, que esperam um mercado de trabalho acolhedor, embora a realidade para muitos deles seja bem diferente.
Os anúncios de emprego se repetem para funções como “deliverys”, repositores de mercadorias em lojas, ajudantes de cozinha e de limpeza, para citar alguns exemplos.
Sobre o tema, a Prensa Latina conversou com Laura Martínez, membro da Secretaria Executiva da central sindical PIT-CNT, que possui uma comissão dedicada à questão, tanto para a defesa dos direitos trabalhistas daqueles que optam por viver aqui, quanto para promover sua sindicalização como forma de proteção.
Para a líder sindical, os imigrantes constituem o setor mais desprotegido, sobretudo devido à necessidade de conseguir “um primeiro emprego” e, posteriormente, à dificuldade de melhorar de situação.
O número de estrangeiros que contribuem para a previdência social gira em torno de 6,5% do emprego formal, segundo dados do Banco de Previsão Social. Mas 80% da população migrante acaba se empregando em setores como serviços e comércio, com alto índice de informalidade — um fenômeno que também afeta uma parte significativa da população nativa, afirma Laura Martínez.
Ela explica que os recém-chegados conseguem empregos com salários baixos e são obrigados a trabalhar um número maior de horas semanais. Nesse contexto, destacam-se, entre outros, aqueles que trabalham em plataformas digitais, ou seja, profissionais das tecnologias da informação e das comunicações
Quem vem de fora trabalha mais do que a população local porque o mercado lhes oferece vagas nos postos mais precários, observa a representante sindical.
Ela acrescenta outra dificuldade na hora de reconhecer seus títulos profissionais e cita como exemplo cubanos e venezuelanos, muitos dos quais possuem alta qualificação.
“Assim, quando conseguem um emprego na área de serviços, costumam permanecer por muito mais tempo do que deveriam, considerando sua formação”, ou seja, médicos, engenheiros e outras profissões.
Martínez menciona as dificuldades enfrentadas pelas mulheres migrantes, sobretudo aquelas que têm filhos e são chefes de família. Muitas vezes, elas ocupam vagas em serviços de limpeza e cuidados a terceiros, com estabilidade no emprego bastante precária.
O país de origem também tem suas implicações. As dominicanas e peruanas são mais direcionadas para trabalhos domésticos, especialmente aqueles que incluem alojamento, o que significa que praticamente moram onde trabalham.
São formas de exploração, ressalta minha entrevistada, que reconhece tanto o desconhecimento das leis trabalhistas quanto as violações por parte dos empregadores.
Aproveitam-se da urgência por trabalho, pressionam para que elas não se organizem sindicalmente, não se filiem. Pedem que trabalhem mais ou que realizem tarefas que talvez os nacionais não fariam, entre outras razões porque conhecem o acordo coletivo e os direitos, ressalta ela.
Ela ressalta que se trata de uma “precariedade forçada, pois se aproveitam da necessidade de ganhar alguns pesos para pagar uma aposentadoria, um aluguel, se estabelecer com a família”, e com isso vem o desconhecimento da legislação.
O OUTRO LADO DA QUESTÃO
Uma pesquisa recente da empresa Equipos Consultores revela que 42% dos uruguaios consideram que a chegada de imigrantes prejudica o país, enquanto 37% entendem que ela o beneficia.
Os 16% restantes avaliam que não gera efeitos claros ou tem um impacto neutro, e 5% preferiram não se pronunciar.
A representante do PIT-CNT relativiza esses números, mas reconhece os problemas que afetam os imigrantes.
“Apostamos, por meio de nosso trabalho sindical, em enfrentar as barreiras reais que os migrantes enfrentam e, por isso, na tolerância e na integração”, afirmou.
“Sabemos que, com as ondas migratórias, precisamos enfrentar discursos de ódio e combater o racismo e a xenofobia, que estão ocorrendo”, reconheceu.
Ela destaca que, a partir do movimento operário, buscam integrar os migrantes para “combater a exploração, o medo e a desinformação”.
“Temos que explicar a eles a especificidade da nossa organização no Uruguai, que é diferente da de outros países do continente. Por isso, temos na agenda sindical a defesa de seus direitos e o combate à lógica de exploração e às pressões que se aproveitam da necessidade, o que explica a baixa taxa de sindicalização”.
Nesse sentido, mostramos aos nossos líderes sindicais as dificuldades e barreiras que a população migrante enfrenta para exercer seu direito à mobilidade humana e profissional, ressalta.
UMA QUESTÃO DE ESTADO
Laura Martínez menciona que o governo aplica políticas voltadas para os migrantes, “mas elas exigem recursos que, em alguns momentos, não estão disponíveis ou se revelam insuficientes”.
Ela explica que esse é um tema discutido no Diálogo Social convocado pelo Poder Executivo e por meio do qual foram definidas as linhas de ação do governo.
Paralelamente, está sendo discutido no Parlamento o projeto de Prestação de Contas do governo, com uma dotação orçamentária restrita, mas que prioriza políticas sociais, sobretudo para combater a pobreza infantil, a insegurança e a situação das pessoas em rua.
“Também temos problemas estruturais que devemos resolver, como, por exemplo, a falta de emprego para nossos jovens e as desigualdades de gênero no acesso ao trabalho. Além disso, há uma questão pendente relacionada à política de cuidados, que dificulta a inserção das mulheres no mercado de trabalho”.
E, em meio a tudo isso, a população migrante, que em sua maioria está na faixa etária produtiva, entre 29 e 59 anos, sofre com essas limitações, mas há reconhecimento e vontade de superá-las, conclui a dirigente do PIT-CNT.
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