O filme, que estreou ontem em Lima e nas cidades de Juliaca, Cusco, Puno e Arequipa, no sul do país, foi relegado a horários alternativos e a um número limitado de cinemas pela rede privada Cineplanet, de acordo com uma denúncia apresentada pelo diretor, Javier Corcuera, e pelos produtores do filme.
O incidente gerou condenação por parte de organizações sociais, parlamentares e outras figuras públicas que consideraram que o documentário havia sido discriminado por contribuir para a memória coletiva dos eventos de 9 de janeiro de 2023.
O massacre de Juliaca foi uma das 50 mortes registradas durante os protestos em diversas regiões após a ascensão da vice-presidente Dina Boluarte à presidência, substituindo o presidente Pedro Castillo, que foi preso e destituído do cargo pelo Parlamento por tentar dissolvê-lo.
O diretor Corcuera, diante do tratamento inadequado dado ao filme e de sua retirada das salas de cinema no sul do Peru, solicitou à empresa exibidora que retomasse a exibição do filme na região e o oferecesse em Lima em horários que permitissem a presença do público.
“A censura muitas vezes se manifesta de forma sutil, e não podemos permitir que isso aconteça”, disse o cineasta, alertando que, caso seu pedido não seja atendido, discutirá a retirada do filme com os produtores e buscará exibições alternativas.
A Associação de Familiares das Vítimas e dos Feridos pela repressão de três anos atrás exigiu que a Cineplanet atendesse às demandas de Corcuera e dos produtores. “Basta silenciar nossas vozes”, declararam, referindo-se ao fato de o documentário incluir depoimentos de familiares dos mortos.
A congressista Sigrid Bazán descreveu o tratamento dado à Cineplanet como “um terrível ato de censura” e uma tentativa de silenciar a memória e tornar invisíveis as vítimas que ainda aguardam justiça.
“Grupos poderosos querem silenciar a memória do povo; não conseguirão”, comentou o congressista Jaime Quito, aludindo ao fato de a rede Cineplanet pertencer ao grupo financeiro e empresarial de Carlos Rodríguez Pastor.
A censura, afirmou a congressista Ruth Luque, visa garantir que “os responsáveis e as vítimas nunca mais sejam mencionados; eles não querem ouvir; querem que esqueçamos”.
“‘Uyariy’ significa escutar, não como um gesto passivo, mas como um ato político. Escutar os povos historicamente explorados, silenciados por um Estado que protege a ordem capitalista e criminaliza o protesto popular”, diz a introdução do filme, que mostra que a memória do ocorrido permanece em canções em aimará e quéchua.
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