Domingo, Janeiro 11, 2026
NOTÍCIA

Juristas em defesa da Venezuela e da paz

Caracas (Prensa Latina) O Encontro de Juristas em Defesa do Direito Internacional pela Soberania e pela Paz, realizado na Venezuela nos dias 13 e 14 de novembro, constituiu um forte apoio ao presidente Nicolás Maduro e à Revolução Bolivariana.

Por Juan Carlos Díaz Guerrero

Correspondente-chefe na Venezuela

A convocação do Conselho Nacional pela Soberania e pela Paz a juristas, acadêmicos e especialistas de 35 países de todos os continentes foi mais uma jogada magistral do governo venezuelano, não só na defesa da República, mas também da América Latina e do Caribe, da humanidade e do Direito Internacional Público.

O chefe de Estado ponderou que, em meio às ameaças, à guerra psicológica e às perseguições que pairam sobre esta nação sul-americana, “se levantou um movimento tão poderoso de juristas no mundo”, como parte da expressão de solidariedade que se ergue entre os povos, em sua profundidade, em toda a extensão do planeta.

Este encontro ocorreu em um contexto tenso devido às ameaças de agressão por parte dos Estados Unidos que, como na época dos corsários, piratas e canhoneiras, pretendem invadir a Venezuela para se apoderar de suas enormes riquezas naturais através da força.

Sob o que foi qualificado como um “incomum, extraordinário e extravagante” despliegue de forças e meios nas águas do Caribe — algo não visto na região há 100 anos —, o Pentágono retomou a nunca esquecida Doutrina Monroe e posicionou a poucos quilômetros da costa venezuelana uma poderosa força destrutiva.

Esta inclui mais de uma dezena de navios de guerra, entre eles o seu porta-aviões mais moderno, um submarino, aviões de vigilância e ataque, e mais de 15 mil efetivos mobilizados em terra e no mar, segundo fontes jornalísticas.

Em meio às crescentes tensões e à possibilidade de uma conflagração armada de consequências imprevisíveis, o secretário de Guerra da Casa Branca, Pete Hegseth, anunciou a chamada Operação Southern Spear (Lança do Sul), que havia sido previamente comunicada pela Marinha dos Estados Unidos em janeiro de 2025.

Esse poderio militar chegou à região do Caribe sob o pretexto questionável de Washington de combater o narcotráfico, sobre o qual não apresentou nenhuma prova convincente contra Maduro e seu governo, enquanto executa, também sem provas, ataques extrajudiciais contra pequenas embarcações no Caribe e no Pacífico oriental.

JURISTAS DO MUNDO PELA PAZ

Ao apelo do Conselho Nacional pela Soberania e pela Paz, que completará quatro meses de existência, responderam uma centena de juristas do mais alto nível provenientes da Alemanha, Argélia, Argentina, Barbados, Benim, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Espanha e Grécia.

Também da Guatemala, Haiti, Honduras, Irã, Iraque, Itália, México, Nicarágua, Panamá, Peru, Portugal, Porto Rico, República Democrática do Congo, São Vicente e Granadinas, Senegal, África do Sul, Trinidad e Tobago, Tunísia, Uganda e Uruguai, além do país anfitrião.

Maduro afirmou que “eram 100 juristas levantando a bandeira profundamente humana do Direito Internacional” e lembrou os séculos em que se impôs o direito do mais forte e se ignorou a existência de povos inteiros.

Os especialistas internacionais chegaram a Caracas para refletir, debater, apresentar propostas e, acima de tudo, defender com elementos de julgamento o Direito Internacional e a Carta das Nações Unidas, dois pilares que nas últimas oito décadas serviram para evitar que a humanidade sucumbisse ao caos.

Por isso, o dignitário bolivariano alertou que, atualmente, essa Carta está sofrendo “ataques como na época de Adolf Hitler e Benito Mussolini, e pretende-se que seja flagelada e desconhecida, assim como todo o Direito Internacional”.

Enfatizou que isso inclui aqueles que deveriam ser os garantes mundiais, como o Conselho de Segurança, o Secretário-Geral da ONU, a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional.

Na opinião de Maduro, todas essas instâncias estão sendo “massacradas, inutilizadas e inexistentes” e ressaltou que “estamos em um momento de perigo em que a garantia da paz deve ser dada pelos povos acima de qualquer coisa”.

O coordenador do Conselho Nacional pela Soberania e pela Paz e presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, ao inaugurar a reunião, exortou os presentes a “acompanhar nossa denúncia e verdade”.

“Ajudem-nos a manter essa liberdade e essa paz”, enfatizou Rodríguez, e persuadiu a buscar uma voz conjunta no trabalho de defender a lei, que “é uma forma de defender a soberania e a paz”.

Ele denunciou que o poderio militar dos Estados Unidos implantado no Caribe e os meios de comunicação e redes sociais criaram realidades virtuais “absolutamente diferentes da verdade e do cotidiano” da vida de 30 milhões de compatriotas.

A instalação dessas “mentiras, calúnias e falsidades” pelo governo dos Estados Unidos não tem outro objetivo senão violar o direito, as leis e as convenções internacionais, ressaltou.

Essas calúnias e mentiras, e suas consequências posteriores, não têm outro objetivo que a “forma máxima de agressão para promover na Venezuela uma mudança de regime” e substituir o governo constitucional legitimamente constituído por meio de mais de 30 processos eleitorais, declarou o deputado.

O ministro venezuelano das Relações Exteriores, Yván Gil, alertou que a ameaça que paira hoje não é apenas contra a Venezuela, mas “contra toda a humanidade e o sistema das Nações Unidas”.

A República Bolivariana é o centro da agressão do imperialismo para controlar os recursos petrolíferos, mas o que está se configurando, em sua opinião, “é uma agressão contra a humanidade” e o sistema da ONU que estabeleceu os fundamentos básicos como a paz, a segurança internacional, a cooperação, os direitos humanos e o desenvolvimento. Hoje “está em jogo a estabilidade e a paz mundial”, pelo que se requer a mobilização dos juristas, das sociedades inteiras e dos povos pela gravidade do que implica a agressão a um país livre e soberano como a Venezuela, insistiu.

A presidente do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela, magistrada Caryslia Beatriz Rodríguez, também destacou que o Direito Internacional é um dos pilares fundamentais que a humanidade concebeu para “superar a anarquia e construir um mundo baseado na justiça, na equidade e na paz”.

Esses princípios, disse ela, apesar dos ataques incessantes e da ameaça imperial nos últimos 26 anos, “foram exaltados na Venezuela”.

NUDEZ IMPERIAL E PROPOSTAS

Vozes provenientes da Argentina, Cuba, Portugal e da República Bolivariana revelaram em suas intervenções a atuação ilegal dos Estados Unidos contra o Direito Internacional e os preceitos que regem a coexistência pacífica entre povos e governos.

A presidente da Associação Americana de Juristas da Argentina, Claudia Rocca, expôs que os Estados Unidos utilizam a desculpa do narcotráfico para legitimar sua ingerência em outros países e realizar uma agressão militar direta porque “o pretexto dos direitos humanos não pode ser utilizado por ser o Estado que mais os viola, juntamente com o sionismo israelense”.

A segunda vice-presidente continental da Associação Americana de Juristas mencionou alguns dos crimes previstos no Direito Internacional, como os contidos no Estatuto do Tribunal Penal Internacional (TPI), que considera como violação, em seu artigo cinco, ordem quatro, o “crime de agressão”.

“Não podemos permitir que nos roubem a ordem internacional e o direito à coexistência pacífica entre os Estados e o respeito à soberania e autodeterminação dos povos”, afirmou, e propôs, sob aplausos, apresentar uma denúncia ao TPI contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O vice-presidente da Sociedade Científica de Direito Internacional de Cuba, Freider Santana, considerou, por sua vez, o despliegue militar dos Estados Unidos no Caribe como uma agressão flagrante de caráter imperial que viola a ordem jurídica internacional.

Contextualizou que o encontro ocorreu em “um momento grave para a paz, a segurança e a autodeterminação”, diante do recente e crescente envio de tropas militares dos Estados Unidos ao Mar do Caribe.

O reitor da Universidade de Oriente mencionou entre as violações o “princípio da proibição do uso da força e da ameaça do uso da força, e a erosão do princípio da igualdade soberana”.

Para o especialista cubano, a presença de navios de guerra, aviões de patrulha marítima e outros ativos militares nas proximidades das zonas econômicas exclusivas dos países do Caribe constitui “um ato de ingerência e coerção ilícita”, além de intromissão nos assuntos internos.

Essa postura militar “busca coagir as decisões políticas dos governos soberanos, influenciar suas alianças internacionais e dissuadir opções políticas que Washington considera contrárias aos seus interesses”, avaliou.

O doutor em Ciências afirmou que os Estados Unidos agem como se seu poder lhes conferisse “um status superior”, violando assim a igualdade jurídica de todos os Estados, e expressou que essa projeção de força militar “é a antítese da solução pacífica de controvérsias”.

Em vez de recorrer à negociação ou aos bons ofícios, indicou, o governo americano recorre à demonstração de força como instrumento de política externa, o que mina esse princípio fundamental, expressou.

A presidente da Associação de Juristas Democratas de Portugal, Madalena Santos, falou sobre os “graves perigos concretos que pairam sobre a região da América Latina e do Caribe, em particular sobre a Venezuela”, e afirmou que a solidariedade internacional é indissociável da paz, da soberania dos povos e da justiça social.

O procurador-geral venezuelano, Tarek William Saab, destacou que, desde a chegada ao poder de Hugo Chávez em 1999 e com tudo o que aconteceu durante a presidência de Nicolás Maduro, nos últimos 26 anos, revela-se claramente “a extinção” do Direito Internacional Público e dos Direitos Humanos tal como foram concebidos, construídos e redigidos.

Ele afirmou que os impérios, o americano no caso venezuelano, destruíram o Direito Internacional.

CONCLUSÕES E AÇÃO IMEDIATA

O Encontro de Juristas em Defesa do Direito Internacional pela Soberania e Paz ( ) pode ser considerado proveitoso, se levarmos em conta a proposta de 10 acordos que Maduro pediu que fossem colocados “imediatamente em prática” e que englobam “o filtro e a força” com que foram concebidos e desenvolvidos em função da segurança e da paz no Caribe.

Nas conclusões, os participantes exigiram que os Estados Unidos cessassem suas operações militares no mar do Caribe e as ameaças contra a América Latina e o Caribe, e o respeito irrestrito ao Direito Internacional, aos tratados bilaterais e multilaterais e à Carta das Nações Unidas como “única via para a resolução pacífica das controvérsias”.

Convocaram a comunidade jurídica da América Latina e do Caribe e todos os membros das Nações Unidas a “vigiar e denunciar às instâncias competentes” as violações e o direito internacional que ponham em risco a estabilidade da região e do mundo.

Da mesma forma, expressaram a “devida preocupação e repulsa” diante das recentes execuções extrajudiciais fora de qualquer âmbito de direitos ocorridas no mar do Caribe por ação unilateral das Forças Armadas dos Estados Unidos.

Afirmaram que estas são, em todos os sentidos e em todas as suas partes, “violadoras dos Direitos Humanos e do Direito Internacional”.

Em outra conclusão, eles pediram a formação de “uma ampla liga de juristas em defesa do Direito Internacional”, com o objetivo de avaliar “os meios necessários para apresentar formalmente uma denúncia perante as instâncias internacionais competentes” pela ameaça dos Estados Unidos no Caribe.

Exigiram reativar com força o multilateralismo regional devido às graves ameaças dos Estados Unidos, bem como à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, para que “cumpra a proclamação de janeiro de 2014, na qual a região foi declarada Zona de Paz”.

Por outro lado, exortaram os governos do mundo a assumirem uma posição clara e de condenação diante da violação do Direito Internacional e da escalada da violência na Venezuela e na região, e a “organizarem atividades de sensibilização e debates públicos sobre as graves ameaças que pairam sobre o Caribe”.

Por fim, eles ratificaram perante o mundo que a paz duradoura só pode ser construída sobre os alicerces da justiça social, da equidade e do pleno respeito aos direitos humanos e ao direito internacional.

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