A vitória tem dimensões extraordinárias. Nenhum outro político brasileiro havia conquistado a Presidência quatro vezes, nem conseguido vencer um segundo turno após ter ficado em segundo lugar na primeira etapa da votação.
O resultado contra o senador Flávio Bolsonaro concretizou um feito que, até poucas semanas atrás, parecia improvável; mas, se alguém era capaz de alcançá-lo, esse alguém era Lula, cuja trajetória é feita, justamente, de “impossíveis”.
O operário metalúrgico que emergiu da classe trabalhadora para se tornar presidente da maior economia latino-americana demonstra, mais uma vez, uma capacidade excepcional de interpretar as aspirações populares, resistir às adversidades e reconstruir maiorias mesmo quando o horizonte parece fechado.
Sua trajetória é, por si só, uma sucessão de acontecimentos extraordinários: líder sindical durante as lutas pela redemocratização, fundador do Partido dos Trabalhadores e vencedor das eleições de 2002, governou o Brasil por dois mandatos consecutivos, entre 2003 e 2010, alcançando uma projeção internacional que o transformou em uma das figuras mais reconhecidas da esquerda mundial.
Depois, veio o encarceramento, em 2018, que o afastou da disputa política. Permaneceu 580 dias na prisão antes de recuperar a liberdade, enquanto as condenações contra ele foram, posteriormente, anuladas pela justiça brasileira.
Quando muitos consideravam sua carreira encerrada, ele retornou às urnas e derrotou Jair Bolsonaro em 2022; e agora, às vésperas de completar 81 anos — neste 27 de outubro —, protagoniza mais um capítulo excepcional. Após ficar atrás de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, em 4 de outubro, ele conseguiu reverter o resultado e conquistar seu quarto mandato, em uma eleição que voltou a mobilizar um país profundamente polarizado.
No entanto, essa vitória — na qual Lula obteve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de seu rival — não pode ser explicada apenas pela figura do mandatário.
Ela pertence também a milhões de brasileiros que ocuparam as ruas, participaram de atos, compartilharam mensagens e transformaram a campanha em uma mobilização coletiva.
A virada teve, nas redes sociais, um de seus cenários decisivos. O chamado “Exército de Lula”, organizado no WhatsApp pelo deputado André Janones, chegou a reunir quase 11 milhões de integrantes.
A partir desse espaço, o parlamentar — alçado por seus seguidores ao posto de “general” da tropa digital — impulsionou convocações, orientou ações e contribuiu para multiplicar a presença de mensagens favoráveis ao presidente.
A iniciativa demonstrou como o conhecimento sobre algoritmos, as dinâmicas de circulação de conteúdos e a participação organizada podem ser colocados a serviço de uma campanha política.
Mas Janones também sintetizou uma lição fundamental: as redes, por si sós, não ganham eleições; a força digital precisava encontrar a mobilização nas ruas.
E lá estavam os militantes, os movimentos sociais, os trabalhadores, os jovens e os cidadãos que assumiram como sua a disputa pelo futuro do país.
A vitória de Lula é, portanto, a de um líder que demonstrou grande capacidade de sobrevivência política, mas também a de uma multidão que decidiu não ficar à margem da história.
Em conversas com apoiadores do chefe de Estado, costumam surgir vários elementos comuns a essa luta compartilhada: a necessidade de proteger a soberania nacional e derrotar a extrema-direita, a preservação dos programas sociais e a defesa da democracia. Vivemos um momento em que é preciso escolher entre a democracia e os bolsonaristas, comentou neste domingo à Prensa Latina a brasileira Ana Paula Caldas, na saída de um local de votação no Distrito Federal.
Na mesma linha, Célia Chaves de Souza lembrou que o povo brasileiro teve de lutar muito para conquistar a democracia no período posterior à ditadura militar, e expressou seu receio de que uma vitória de Flávio Bolsonaro ameaçasse essa e outras conquistas sociais.
Para ambas, e para muitos outros apoiadores de Lula, o chefe de Estado representava justamente a forma de enfrentar esses riscos.
Assim, enquanto o Brasil abre um novo capítulo de sua história democrática, Lula volta a demonstrar que sua trajetória ainda reserva espaço para o surpreendente.
Mas, desta vez, o feito não leva apenas o seu nome: pertence também a milhões de brasileiros que se mobilizaram para transformar o que parecia impossível em uma vitória coletiva.
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