Sábado, Outubro 17, 2026
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Brasil: O Barão Munchausen e o Candidato do Labirinto

São Paulo, Brasil (Prensa Latina) O Barão Munchausen, personagem fictício do século XVIII, entrou para a história da literatura como o homem capaz de narrar as aventuras mais extraordinárias com a serenidade de quem conta o que acabou de ver pela janela.

Por Frei Betto*

Colaborador da Prensa Latina

Ele viajou à Lua, se puxou pelos cabelos para sair de pântanos e cavalgou em balas de canhão. O detalhe menos importante era se aquilo realmente acontecera; o essencial era contá-lo com convicção. Como ensina Aristóteles, a ficção não precisa ser verdadeira, mas plausível.

Na política brasileira, há quem pareça ter descoberto a mesma técnica: quando contam uma mentira e a realidade os alcança, inventam outra. Flávio Bolsonaro não é o Barão Munchausen, é claro. O personagem de Rudolf Erich Raspe (1737-1794) é uma criação literária. Mas a comparação ajuda a compreender um fenômeno político contemporâneo: a capacidade de desviar o foco dos fatos documentados para o que se espera que o público acredite.

O caso Daniel Vorcaro é um exemplo. Documentos divulgados no âmbito das investigações sobre o Banco Master e seu proprietário colocam Flávio Bolsonaro no centro das apurações sobre os fundos destinados ao filme “Dark Horse”, uma produção sobre Jair Bolsonaro.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, uma investigação da Polícia Federal confirmou que Flávio Bolsonaro era o contato direto de Vorcaro e negociou um financiamento que poderia chegar a 131 milhões de reais; pelo menos 63 milhões teriam sido pagos, de acordo com documentos publicados na imprensa.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirma que não negociou nenhuma contrapartida pelo dinheiro e, em entrevista ao programa jornalístico Jornal Nacional, declarou: “Não assinei contrato com ninguém”. Ele disse que sua participação consistiu em autorizar o uso de sua imagem e atrair investidores.

Aí reside a matéria-prima perfeita para o caso Münchhausen: por um lado, documentos, mensagens e investigações; por outro, versões políticas elaboradas para remodelar a narrativa.

Um detalhe digno do barão é que, enquanto surgiam notícias sobre seu relacionamento com Vorcaro, Flávio Bolsonaro começou a perguntar publicamente se Lula era “amigo, conselheiro ou sócio” do banqueiro. É uma velha técnica retórica: se a pergunta sobre si mesmo se mostra incômoda, é preciso fazer outra — de preferência mais escandalosa — sobre o adversário.

O problema é que o Barão Münchhausen poderia fugir para a lua. Um candidato à presidência não pode escapar da documentação compilada pela Polícia Federal e pelos tribunais.

E as evidências mostram que Flávio Bolsonaro tentou ligar para Vorcaro durante os quatro dias anteriores à primeira prisão do banqueiro, segundo mensagens e ligações encontradas pela Polícia Federal no celular apreendido.

Também consta nos registros que Flávio Bolsonaro viajou, em janeiro de 2025, em um jato particular de propriedade da Vorcaro, de Fort Lauderdale, EUA, para Brasília.

Nada disso, por si só, constitui crime. Essa distinção é essencial. Uma investigação não é uma condenação, uma suspeita não é uma sentença e a proximidade não implica, por si só, ilegalidade. Mas a existência de documentos probatórios também não pode ser descartada como mera fantasia simplesmente por ser politicamente inconveniente.

Münchhausen tinha uma vantagem: ninguém esperava que suas histórias fossem verdadeiras. O leitor já sabia que estava lidando com um fabulista. Na política, porém, a situação é mais delicada. O contador de histórias pode tentar convencer o eleitor de que o pântano não existe, mesmo que a lama esteja até os joelhos.

Talvez essa seja a diferença essencial entre literatura e política. Na literatura, as mentiras podem ser encantadoras. Podem nos levar à lua, fazer cavalos voarem e transformar um homem em um herói de aventuras impossíveis.

Na política, as mentiras têm consequências muito mais prosaicas, pois podem ocultar relações, obscurecer responsabilidades, turvar os fatos e transformar perguntas legítimas em cortinas de fumaça.

O Barão Munchausen arrancou os próprios cabelos do pântano. Flávio Bolsonaro enfrenta um pântano diferente, porque cada tentativa de se esquivar de uma pergunta gera uma nova. E, neste caso, talvez Jorge Luis Borges esteja certo sobre os labirintos: neles, o mais difícil não é encontrar a saída, mas admitir que se está dentro.

rmh/fb/ls

*O escritor brasileiro e frade dominicano, conhecido internacionalmente como teólogo da libertação, Frei Betto é autor de 60 livros em diversos gêneros literários — romances, ensaios, ficção policial, memórias, literatura infantil e juvenil e obras religiosas. Recebeu duas vezes o Prêmio Jabuti, o prêmio literário mais prestigioso do país, em 1985 e 2005. Em 1986, ele foi Eleito Intelectual do Ano pelo Sindicato Brasileiro de Escritores. Assessor de movimentos sociais como as Comunidades Eclesiais de Base e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, participa ativamente da vida política do Brasil há cinco décadas.

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