Segunda-feira, Janeiro 12, 2026
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Agressão dos EUA contra Venezuela mobiliza a esquerda continental

Buenos Aires, 12 jan (Prensa Latina) A agressão dos Estados Unidos contra a Venezuela, com o sequestro ilegal de seu presidente constitucional, Nicolás Maduro, mobilizou a esquerda latino-americana, que reagiu de forma unida, expressando uma condenação coletiva à ação traiçoeira.

Houve protestos populares, manifestações de denúncia, queima da bandeira estadunidense e de efígies do Tio Sam, símbolo dos Estados Unidos, que voltaram às ruas de diversos países. Uma série de partidos políticos e diversas organizações repudiaram a intervenção, e quase 700 parlamentares do hemisfério e de outras regiões do mundo assinaram uma declaração de condenação.

Até mesmo presidentes que criticaram Maduro após as últimas eleições venezuelanas, como Gabriel Boric, do Chile, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Gustavo Petro, da Colômbia, ergueram suas vozes em uníssono para rejeitar a intervenção militar hegemônica.

Grupos trabalhistas, sociais e de direitos humanos declararam-se em estado de mobilização permanente contra a prisão de Maduro e estão organizando protestos simultâneos no que chamaram de dia de ação anti-imperialista, no final de janeiro.

“Devemos deixar de lado nossas diferenças para nos unirmos em ações concretas: declarar um dia de rebelião de consciência para o povo; uma greve continental; mobilização e reflexão pelos diversos setores sociais, políticos, culturais e científicos”, exortou o laureado argentino com o Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel.

Seu apelo encontrou forte repercussão quando representantes de quase uma centena de organizações argentinas se reuniram na sede da Central dos Trabalhadores da Argentina Autônomo na segunda-feira, dia 5, e decidiram realizar um protesto naquele mesmo dia em frente à embaixada dos EUA em Buenos Aires.

A reação contra a ofensiva ilegal de Washington começa a tomar forma em um movimento continental, com uma mensagem comum: diante da crescente pressão militar e diplomática dos Estados Unidos, protestos de rua, pressão internacional e coordenação regional emergiram mais uma vez como as principais ferramentas de resistência, relata o elDiarioAR.

A exortação do ganhador do Prêmio Nobel da Paz repercutiu quase que imediatamente. Apenas 24 horas depois, o Foro de São Paulo liderou um encontro multissetorial com líderes políticos e sociais de toda a América Latina para rejeitar a interferência dos EUA na Venezuela.

Na reunião realizada na CTA-A (Central dos Trabalhadores da Argentina Autônoma), foi apresentada a Declaração “Em Defesa da Soberania, do Direito Internacional e da Paz Regional!”. Em 24 horas, ela já havia sido assinada por 634 legisladores da região e do resto do mundo, condenando os bombardeios perpetrados contra a Venezuela e o sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

O encontro na CTA-A (Central de Operações Trabalhistas Argentinas) foi uma demonstração dessa unidade, do peronismo à esquerda trotskista, dos movimentos sociais aos sindicatos, dos grupos de direitos humanos às organizações culturais. A causa anti-americana transcendeu diversas expressões ideológicas, mas compartilhou um denominador comum.

O Foro de São Paulo, um núcleo histórico da esquerda latino-americana, promovido por figuras como Lula da Silva, Hugo Chávez e Fidel Castro, realizou uma cúpula virtual na terça-feira, dia 6, com a participação de mais de 120 líderes de diversos países e esferas políticas.

Representantes do Grupo Puebla, da Internacional Progressista e do Grupo Sul-Mundo compartilharam opiniões e ideias. Também participaram representantes da coalizão Morena, que governa o México; do Pacto Histórico Colombiano; e o ex-líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn, atualmente membro do parlamento.

O ex-embaixador argentino na Venezuela, Oscar Laborde, declarou após o encontro, citado pelo elDiarioAR, que se tratava de uma reunião para definir como os movimentos de esquerda latino-americanos colaborariam contra a prisão de Maduro.

Os participantes concordaram com um arcabouço comum de ação: rejeitar a apropriação, pelos EUA, de recursos naturais e bens comuns, condenar o avanço militar em território venezuelano e insistir na imediata desescalada da agressão estadunidense no Caribe.

Com a programação do chamado “Encontro de Solidariedade com a Venezuela” ainda em fase de elaboração, eles definiram os dias 28 e 29 de janeiro como possíveis datas, coincidindo com o décimo segundo aniversário da declaração da América Latina e do Caribe como “Zona de Paz” pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC).

Discutiu-se também a realização de um “Dia Continental Anti-Imperialista”, provavelmente na Colômbia, México e Cuba.

Após novas ameaças do presidente Donald Trump nesta semana, ocorreram telefonemas entre Lula, Petro e a presidente mexicana Claudia Sheinbaum. O elDiarioAR informa que a Colômbia sediará a cúpula CELAC-União Africana em fevereiro. Enquanto isso, movimentos sociais e organizações de base estão preparando uma cúpula popular em Bogotá para protestar em apoio à Venezuela e contra a política externa dos EUA. Além disso, um evento específico sobre reforma agrária e movimentos camponeses será realizado em 24 de fevereiro.

Também foi acordado ativar Brigadas Internacionais de Solidariedade que viajarão para a Venezuela em breve. Essas brigadas são compostas por médicos, advogados e outros profissionais que o governo de Caracas possa precisar.

A intervenção militar de Washington também provocou protestos massivos no fim de semana na Itália, França, Espanha, Portugal, Cuba, México e Alemanha, entre outros países.

O secretário-geral da CTA-A, Hugo Godoy, afirmou que os sindicatos em todo o continente decidiram manter um estado de mobilização permanente para construir pontes com os setores anti-Trump dentro dos próprios Estados Unidos.

O presidente da Conferência Sindical das Américas (CSA), Fred Redmond, endossou uma declaração condenando “a agressão militar dos EUA e a violação da soberania da Venezuela”.

Essa organização mantém laços com políticos como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez. “Trump não está apenas colocando a América Latina em risco: ele está transgredindo todas as normas das relações internacionais”, afirmou Godoy.

Embora não se alinhe com Maduro – observa o elDiarioAR – o movimento progressista se manifestou contra Trump. A Aliança Progressista das Américas (APA), que reúne grupos que vão desde socialistas em Santa Fé até forças social-democratas europeias, por exemplo, afirmou que “a democracia não pode ser sequestrada ou imposta pela força”.

Assim, a crise venezuelana serviu mais uma vez como catalisador para um movimento político e social de esquerda que parecia estar se dispersando diante do avanço da extrema-direita continental, liderada por Trump em Washington e Javier Milei em Buenos Aires.

Em meio a essa onda de rejeição, novas vozes emergem, jovens antes desconhecidos que assumem posições firmes, como é o caso.

A história de Jessica Plitcha, uma estadunidense presa pela polícia por expressar duras críticas a Trump à imprensa em seu país.

Os policiais a levaram para a delegacia, acusando-a de perturbar o trânsito, mas como não conseguiram comprovar as acusações, tiveram que liberá-la. Ao sair da sala onde estava detida e chegar ao saguão da delegacia, onde amigos e apoiadores a aguardavam, a primeira coisa que Jessica fez foi gritar em espanhol: “Viva a Venezuela! Viva Maduro!”

ro/mh/ls

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